O livro abaixo resenhado me remete ao passado num piscar de olhos! De alguma forma, todos nós somos o quadro amplamente descrito no texto de Rosamunde Pilcher. Temos em nós, a memória do vivido em corpo e alma! E como é maravilhoso lembrar o que fora bom e aquece nosso coração. Boa leitura!!!

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“O que vale na vida não é o ponto de partida
e sim a caminhada.
Caminhando e semeando,
 no fim terás o que colher”.

                                                (Cora Coralina)


--- RESENHA ---
[Por Átila Muniz]
Emoldurada pela poesia. Em pesquisa bibliográfica, pouco encontrei sobre a escritora inglesa Rosamunde Pilcher que, aos 93 anos de idade, contabiliza livros muito famosos, tais como: “Vitória”, “A Tempestade”, “Solstício de Inverno” e, o que será amplamente citado nesse texto; “Os Catadores de Conchas”. Em sua produtiva carreira, ao todo escreveu 34 livros.
         Desde que publicou seu primeiro livro em 1949, assinou também como “Jane Fraser” e, posteriormente, passou a usar seu próprio nome. Sua última obra com um pseudônimo foi “The Keeper’s House” (1963), sem edição brasileira. E, assinando como Rosamunde Pilcher, foi “Solstício de Inverno” (2000),  com edição brasileira lançada em 1988 quando a autora possuia 64 anos de idade.
         Olhando para suas suas fotos, instantaneamente Rosamunde nos arrebata com sua expressão tranquila e bonachona. E, não seria difícil imaginá-la em uma sacada de pedra polida, sentada em frente ao jardim redigindo seus livros com um caderno de papel de linho em uma das mãos e, noutra, uma caneta Crown Capricci – sua preferida. Rosamunde nunca gostou de utilizar a máquina de escrever e considera-se “não-letrada” no uso da informática, afirmando: “(...) quando ganhei um notebook; agradeci de imediato e disse que amava meu caderno e minha letra”. E surge a indagação: como não se apaixonar por essa senhora tão sensível e poética?
        
TÍTULO: “Os Catadores de Conchas”
AUTOR: Rosamunde Pilcher

         Em linhas gerais, “Os Catadores de Conchas” é classificado como uma obra romântica de ficção que traça a vida da protagonista Penelope Keeling que foi agraciada com pais amorosos e incansáveis em lhe prestar assistência em tudo. Contudo, um revés da vida faz com que ela se case com o homem errado. Logo, anos adiante, surge o verdadeiro amor e com ele dilemas, tragédias e inúmeras adversidades. Seus três filhos – Nancy, Olívia e Noel -, são descritos com riquezas de detalhes, assim como, seus mundos intransponíveis, mazelas diárias e (in)felicidades existenciais.
         Tampouco, posso esquecer de citar que o livro de Pilcher é uma história de família. O magistral enredo gira também sobre um quadro pintado pelo pai de Penélope e que dá título ao livro. Tal obra de arte perpassa por três gerações e acompanha o desenrolar da vida de inúmeras pessoas ligadas direta ou indiretamente a Penélope.
         O quadro “Os Catadores de Conchas” traz consigo memórias afetivas de várias pessoas numa saga marcada por enlaces, separações, sabedoria, intriga, pesares e celebrações. Ouso afirmar que o quadro parece possuir um quê de magia, por atravessar anos e anos sem se deteriorar e vivificar memórias daqueles que foram seus curadores.
         Dentre as inúmeras entrevistas cedidas por Rosamunde Pilcher, uma pergunta era sempre, provocativamente, realizada: “a senhora se utilizou de fatos de sua vida ou de sua família?”. E a autora tão simpática sorria e dizia ter sido presenteada com inspirações fictícias. Entretando, nas quase 750 páginas, fica impossível não se questionar sobre a experiência do vivido na realidade traçada pela autora.
         Sobre esse conceito de “experiência do vivido”, a filosofia de GIORDANO (2018) nos direciona perspicazmente:

“Palavras e imagens proliferam-se em um ritmo bastante veloz. Com palavras criamos imagens e as imagens nos oferecem palavras. Palavras e imagens, separadas ou combinadas, narram-se para nós e fazem de nós suas próprias narrativas (...) E pouco ou nada conseguimos nos apropriar de nossos próprios modos de narrar, simplesmente porque, como já bem nos alertou Walter Benjamin, desde há muitas décadas atrás, não sabemos mais narrar e intercambiar experiências. Uma experiência de pensamento é composta tanto pelo vivido quanto pelo narrado, que juntos formam um conjunto de trânsitos que transitam entre si das mais variadas formas. O vivido pede narração, mas, para ser narrada, qualquer experiência precisa, de algum modo, ser comunicada em uma dada forma expressiva que na experiência filosófica é composta, predominantemente, por palavras. Cada forma expressiva é escrita de mundo, a qual por sua vez carrega leituras de mundo que podem ser problematizadas por experiências com o pensamento (...)” (GIORDANO, Rosi. Filosofar e ensinar a filosofar. ANPOF, 2018)

         Destarte, logo nas primeiras páginas a narração de Pilcher nos mostra uma dedicatória delineada, quase que como uma “herança”; pois surgem as seguintes palavras: “Este livro é para meus filhos e os filhos deles”. Então seria o quadro uma personificação de ensinamentos e ideais que a autora deseja imortalizar? Ou seja, no decorrer da obra verifica-se que o quadro representa, fidedignamente, a experiência do vivido por carregar memórias e jornadas íntimas numa narrativa impregnada de emoção e lirismo.
         Em outro trecho da obra, Rosamunde nos traz um diálogo revelador onde uma das personagens que possuiu o quadro deixa clara sua importância para a mãe e descarta a hipótese da venda da obra:

“(...) — Claro que não. — Noel baixou os olhos para seu copo. — No entanto, poderia ganhar, se vendesse o que é dela.
— Se está falando de “Os catadores de conchas” é tempo perdido. Ela morreria antes de se desfazer daquele quadro (...)” (p. 153)

         Assim, toda a trama entremeada de existencialismos chegou até mim, durante um curso de atualização em língua portuguesa oferecido pela “Fundação Curro Velho – Casa da Linguagem” em Belém (PA), no segundo semestre de 2000. Lemos um trecho razoavelmente grande de “Os Catadores de Conchas” para realizarmos um estudo sintático de frases delimitadas pela instrutora do curso. Na mesma semana da leitura adquiri um exemplar num sebo, totalmente arrebatado pelas metáforas criativas, pela poética, pelas “imagens” escritas tão cativantes que tornam a obra fascinante.
         Tampouco posso deixar de citar que Pilcher constrói a trama ora em primeira e ora em terceira pessoa.  E a narrativa mergulha tão profundamente em reflexões que, inúmeras vezes, parecia que Penélope narrava sua vida e era auxiliada “pelos olhos” do quadro pintado por seu pai. Na quase totalidade do texto, ocorre a ordem indireta de construção, tendo uma sintaxe que foge ao padrão sujeito – verbo – predicado. Ao que merece o reconhecimento do trabalho da tradutora Luísa Ibafiez, que deve ter “lutado ferozmente” para manter a qualidade do texto original.
         A autora é tão hábil em suas figuras de construção que a personagem narradora nos presenteia com infinitas recordações alheias entremeadas por diálogos arrebatadores. Chega a “brincar” com seu estilo redacional, fazendo Penélope configurar-se na tríade passado/presente/futuro de si e da tela à óleo que ama tanto. Como mostra o trecho:

"Foi tudo muito bom, em cada sentido da palavra. E, nesta vida, nada que seja bom é realmente perdido. Fica fazendo parte de uma pessoa, torna-se parte de sua personalidade." (p. 369)

         Prosseguindo, “Os Catadores de Conchas” é quase um imenso diário de recordações mas também é mundano. A identificação de quem lê é instantânea por Rosamunde Pilcher escrever situações que qualquer pessoa poderia vivenciar, todavia com uma diferença: a forma de sentir da autora é única, tal como, nossas digitais e retinas. E é aí que reside a especialidade do texto, tendo sido o livro aclamado pelo “The New York Times Book Review” como “uma história profunda, escrita com amor e confiança”.
         Outrossim, a confluência entre protagonista e a presença do quadro se fundem pelo valor sentimental dado ao presente que recebera do personagem  Laurence Stern em seu casamento. É como se a infelicidade de casar com alguém que não se ama, fosse parcialmente sanada pela obra que recebera da figura mais importante de sua vida: seu amado pai. O casamento, o quadro, seu pai, suas desilusões e alegrias...tudo isso demonstra a ciclicidade da vida humana. A autora compôs trechos filigranados que levam a avaliar a presença de Deus, a sinergia em relacionamentos, a linha de extremos, o amar virogorosamente e, principalmente, a sabedoria que erguemos com os anos que ganhamos.
         Sobre a estrutura, fico intrigado sobre o método usado  na forma com que Rosamunde Pilcher conseguiu sozinha traçar um panorama, pormenorizado, sobre cada personagem de cada uma das gerações descritas. E aprofundo questionando: como conseguira apenas com um bloco de papel sofisticado e uma caneta que adorna a caligrafia?  Em suma, como a autora delineou cada peça de um quebra cabeças enorme com cenas por vezes triviais, mas especiais pelos detalhes simples e que fogem ao padrão novelesco dos romances melodramáticos? A resposta viria corroborar com o vigor do talento da autora.
         Ao finalizar a obra no ano 2000 e em julho de 2018, muitos pontos novos foram surgindo e gostaria de ter visto a cena da composição do quadro mais detalhada; já que esse é um colaborador, co-partícipe e fiel escudeiro da narrativa de Pilcher por um sem-fim de momentos. No fundo, queria a cena de Lawrence Stern sujo de tinta pincelando a tela crua, compondo a obra e colocando as cores que, posteriormente seriam trocadas pelos sentimentos daqueles que viveram com o quadro ao redor; o cobiçando ou amando pura e simplesmente.
         Por fim, “Os Catadores de Conchas” é para a literatura universal o mesmo que as valsas de Debussy representam para a música clássica. Vem a ser um livro com gosto de sorvete a refrescar-nos em domingos de verão. Traz a alegria de subir na árvore e encontrar a fruta madura. Leva-nos aos abraços das avós amorosas que nos beijam no portão; assim que chegamos em suas casas. E é uma obra para recomendar aos familiares, amigos e entes queridos; tendo a certeza de que os mesmos lerão suas páginas sentindo o frescor outonal de uma praia com conchas e a água morna tocando em seus pés.

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Comentários

  1. Se algum leitor(a) tiver interesse em ler o e-book acima, por favor, deixe seu e-mail nos comentários! E ouso fazer um pedido: compartilhe o arquivo que receber com o máximo de pessoas possíveis. Vamos fazer essa "árvore do bem" se tornar mais frondosa. Qual árvore? A árvore da leitura, do incentivo a leitura, às transformações advindas do ato de ler. A grande questão é jamais represar o conhecimento. Muito obrigado!!! =)

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